27.11.09

O livro esquecido de Tancredo do Amaral

A escola mais antiga de Salto, ainda hoje em atividade, é a Escola Estadual Professor Tancredo do Amaral. Ela foi criada por meio de decreto estadual de 20/10/1913, sob a denominação Grupo Escolar de Salto de Ytu, e iniciou suas atividades no dia 28 daquele mês. Em sua origem, reuniu 8 escolas espalhadas pelo município e criou mais duas classes, totalizando 407 matrículas em seu primeiro ano de funcionamento.

O Grupo Escolar de Salto recebeu o nome de Tancredo do Amaral apenas em 21 de abril de 1932. Tratava-se de uma homenagem ao primeiro professor formado a lecionar em Salto. O paulistano Tancredo Leite do Amaral Coutinho diplomou-se pela Escola Normal da Capital em 1887. Lecionou por 2 anos em Salto, logo que se formou. Em 1906, formado em Direito, passou a integrar o quadro de funcionários do Ministério Público. Anos depois foi nomeado Juiz de Direito da Comarca de Santa Isabel, onde se aposentou em 1923. Faleceu em Santo Bernardo do Campo, em 1928.

Ao longo da vida Tancredo foi crítico teatral, fez parte da redação do jornal Correio Paulistano e publicou livros didáticos, como História de São Paulo ensinada pela biografia de seus vultos mais notáveis. Esta é sua obra de maior relevo. Tal publicação é de 1895 e foi editada por Alves & Cia. Destinava-se “aos estabelecimentos de instrução popular”, enquadrando-se no segmento de “educação cívica”. No primeiro capítulo, Tancredo versa sobre “Como deve ser estudada a história”, num texto bastante peculiar, carregado de conceitos caros a ele e aos seus contemporâneos, que podem até nos parecer inocentes, hoje: “As nações, meus jovens estudantes, que são grandes agrupamentos de famílias que habitam um território determinado, com certa denominação, e que possuem um governo que dirige, tem a sua história, que é o conjunto dos fatos mais ou menos notáveis, que se ligam ao seu desenvolvimento e ao seu progresso, desde o começo de sua organização. A história de um povo, porém, que é, senão a história dos seus grandes homens, dos seus vultos mais notáveis, que têm trabalhado pelo ideal humano, que é o aperfeiçoamento sempre crescente, o progresso em uma palavra? Que é a história de um país, senão a história de cada um, empregando a sua inteligência e o seu labor nos diversos ramos da atividade humana para elevar o seu torrão natal, a sua Pátria, para honrar a Humanidade?”

O livro divide-se em quatro partes. Na Parte Primeira, “Preliminares”, trata-se de como se deve estudar a história, da origem do povo paulista, e se faz, ainda, uma descrição física de São Paulo, tratando-se também de sua fauna e flora. Na Parte Segunda, nomeada “São Paulo no domínio da metrópole”, alguns aspectos da história colonial paulista, bem como biografias associadas a esse período, dão o tom da narrativa. É a seção mais bem trabalhada e interessante do livro, na qual a figura dos bandeirantes é posta em destaque, sendo vários deles biografados sucintamente. Na Parte Terceira, “São Paulo no regime do Império”, sujeitos como Libero Badaró, o padre Diogo Antonio Feijó, o pintor Almeida Júnior e o músico Carlos Gomes são lembrados. A Parte Quarta e última trata, fundamentalmente, da história recente à época da publicação, e exalta figuras, muitas das quais com grande destaque no cenário político daquele final de século, como Rangel Pestana, Bernardino de Campos, Cerqueira César e Cesário Motta Júnior – este, inclusive, é a quem Tancredo dedica o livro. A seguir, transcrevo uma das biografias, a título de exemplo:

BARTOLOMEU BUENO DA SILVA, O ANHANGUERA

Nasceu na vila de Paranaíba e era filho de Francisco Bueno, sobrinho de Amador Bueno da Ribeira e de D. Filippa Vaz. Em 1682 este notável sertanista, à frente de numerosa bandeira, invadiu os sertões onde se achava a famosa tribo Goyá que habitava as terras mais ocidentais de Minas e São Paulo, descobrindo que havia ouro ali, por ter observado que as mulheres indígenas ornavam a cabeça com folhetas daquele metal. Antes de Bartolomeu Bueno, já diversos bandeirantes paulistas haviam explorado quase todo o sertão dos hoje estados de Goiás e Mato Grosso, porém sem resultado. Bueno com facilidade sujeitou a tribo que acabava de encontrar, por ser pouco bravia, e regressou a São Paulo com grande número de índios e muito ouro. Nessa excursão levou consigo um seu filho menor, que mais tarde descobriu as minas achadas por seu pai. Convém aqui narrar o estratagema de que se serviu Bueno para arrancar dos índios a declaração do lugar onde existia ouro. Lançou fogo a um vaso de aguardente, que fez explosão; e os índios aterrados foram compelidos a satisfazer os seus desejos, recebendo então Bueno dos mesmos o nome de Anhanguera, que quer dizer Diabo Velho. Pedro Taques, escritor conceituado, também refere que Bueno tinha um olho furado e que foi daí que lhe veio tal denominação. Foi casado em primeiras núpcias com D. Isabel Cardoso e em segunda com D. Maria de Moraes, deixando do primeiro consórcio nove filhos. Faleceu no lugar que foi seu berço, em fins do século XVII.


Folha de rosto da referida publicação de Tancredo, de 1895.

18.11.09

Oradores saltenses do século XX

Oswaldo de Souza Aguirre (1896-1965)
Nasceu e faleceu em Santo André/SP, mas viveu a maior parte de sua vida em Salto, entre 1920 e 1950, onde foi sepultado. Foi escrivão de polícia no antigo prédio que abrigava a cadeia e a delegacia, na Avenida D. Pedro II, no local em que hoje se encontra o Fórum. Zeloso cumpridor de seu trabalho, também obteve destaque na comunidade saltense como orador eloqüente e sempre solicitado nos eventos cívicos ou quando da visita a Salto de autoridades de destaque.

Seu nome está fortemente associado à história da imprensa saltense, tendo colaborado em diversos jornais da cidade, a exemplo de O Ferrão, O Serrote, O Argus, O Povo, O Trabalhador. Foi ainda redator de O Saltense e diretor do Correio de Salto. Dentre seus escritos encontram-se até mesmo poesias. A sala de imprensa da Prefeitura de Salto, até a alguns anos atrás, recebia o seu nome – homenagem prestada em 1967. Foi diretor do clube Ideal, em 1928. Estava rotineiramente envolvido com as atividades das diversas sociedades e clubes locais.


Inauguração da sala de imprensa Oswaldo de Souza Aguirre, com a presença de Archimedes Lammoglia, Joseano Costa Pinto e Paulo Maluf, 1967.

Hélio Steffen (1923-1984)
Foi vereador de Salto por dois mandatos e prefeito entre 1956 e 1959. Durante os mais de trinta anos em que participou ativamente da vida social e política saltense, Hélio Steffen notabilizou-se como excelente orador, discursando em inúmeros eventos da comunidade ao longo de sua vida. Nasceu na Fazenda Cruz Alta, município de Indaiatuba, sendo filho de Christina Clemente e Eduardo Steffen. Veio para Salto ainda criança, estudando no Grupo Escolar Tancredo do Amaral. Posteriormente, estudou em Itu, na Escola Normal Regente Feijó, instituição na qual se formou professor, em 1950. Dez anos mais tarde, pela Faculdade de Direito de Niterói, diplomou-se advogado.

A partir de 1940 trabalhou como locutor numa rádio de Sorocaba, tendo passado também pela Rádio Mayrink Veiga, no Rio de Janeiro. No final dessa década, de volta a Salto, Steffen participou do Grêmio Teatral Antonio Vieira Tavares, então existente. Aprovado num concurso estadual, em 1951, foi trabalhar como fiscal de rendas na região de Dracena/SP, serviço ao qual se manteve ligado até se aposentar, por problemas de saúde. Em 1956 casou-se com Haydée Leal Nunes, tendo dois filhos.

Como prefeito, Steffen foi responsável por algumas ações significativas para a Salto daqueles tempos, como a construção da Escola Prof. Cláudio Ribeiro da Silva, o asfaltamento da estrada velha Salto-Itu e a aquisição do terreno no qual seria instalada a Escola Prof. Acylino do Amaral Gurgel, dentre outros órgãos, no Bela Vista. A estação de tratamento de água também foi viabilizada no seu mandato. Como empresário, dedicou-se ao ramo da cerâmica vermelha desde 1957.


Hélio Steffen, prefeito de Salto no final da década de 1950.

7.11.09

Biografia de Anselmo Duarte em vídeo

Veja o vídeo produzido em julho de 2009 pelo Museu da Cidade de Salto e pela Overtake Produções, exibido publicamente na inauguração do Centro de Edudação e Cultura de Salto e da Sala Palma de Ouro, nas noites de 30 e 31 de agosto de 2009.

Sinopse:
Breve narrativa da vida do ator e diretor cinematográfico Anselmo Duarte (1920-2009), desde a infância em Salto, sua cidade natal, até a consagração como diretor, com a premiação de seu filme O pagador de promessas, no Festival de Cannes de 1962. Alguns trechos de Aviso aos Navegantes, Sinhá Moça, Tico-Tico no Fubá e Independência ou Morte documentam o trabalho do ator que pode ser considerado o primeiro galã do cinema nacional.

Direção:
Andrei Schoba
Elton Frias Zanoni

Roteiro:
Elton Frias Zanoni

Produção:
Overtake

Imagens:
Museu da Cidade de Salto
Overtake Produções
Assessoria de Imprensa da Prefeitura de Salto
Cinemateca Brasileira


Parte 1:



Parte 2:

6.11.09

Tipos populares saltenses

Urubatão: figura conhecidíssima na cidade nas décadas de 1970 e 1980, Urubatão, como era popularmente chamado, nasceu em Porto Feliz e se chamava Waldomiro Corrêa da Cruz. Veio para Salto por volta de 1956. Trabalhou em diversos locais na cidade, como na serraria de Walter Carra, na Prefeitura de Salto no calçamento de ruas e na indústria Picchi. Trabalhou ainda na antiga Sorocabana, ajudando a descarregar vagões de madeira. Era famoso por suas gargalhadas escandalosas que seguiam as piadas que sempre estava a contar. Foi dado como morto quando, em meados de 1983, desapareceu de Salto por algum tempo, publicando-se, à época, cartas lamentando sua morte nos jornais locais. Quando reapareceu na cidade, assustou muita gente. Urubatão faleceu de fato em 2002, deixando um legado de inúmeras histórias aos que com ele conviveram e diversas crônicas às quais serviu de inspiração.

Zé Batatão:
seu verdadeiro nome era José Fernandes de Oliveira. Nascido em Monte Mor em 1873, ainda bem jovem veio para Salto. Casou-se com Maria Cecília de Jesus e morou sempre nas proximidades da Igreja Matriz, mas residiu por algum tempo também na Vila Vicentina. Trabalhava com a carrocinha da Prefeitura, fazendo pequenos carretos e foi de grande valia quando das epidemias que assolaram Salto em 1917, 1921 e 1924, disponibilizando sua carroça tanto para transportar vítimas da varíola e da febre amarela para o hospital de isolamento como os mortos para o cemitério local. Foi zelador da Igreja Matriz e presença imprescindível nas procissões do Senhor Morto, como carregador da cadeira da Verônica, e nas cerimônias de lava-pés, representando um dos apóstolos. Andava sempre com um porrete de madeira que servia para dispersar a chusma de moleques que o atormentava com o apelido por ele detestado. Acabou falecendo no Abrigo de Velhos em 1964, para onde foi levado após o falecimento de Nhá Cicília. Zé Batatão foi indiscutivelmente um dos tipos mais populares que a cidade já teve.


Jacomim:
Outro tipo que foi muito popular em Salto e também muito ligado à Igreja, ao padre João da Silva Couto e ao Círculo Católico, foi Giácomo Guidi, o Jacomim. Freqüentador assíduo da Chácara Vendramini juntamente com o Maestro Zequinha Marques e os circulistas, era dado a fazer discursos, nos quais sempre misturava algumas palavras em latim, nem sempre corretas, assimiladas através da convivência com os padres da época. A maior popularidade de Jacomim, no entanto, veio de um fato curioso, acontecido por volta de 1918, durante uma epidemia de gripe espanhola que atingiu a cidade. Ele adoeceu e foi dado como morto, ficando o seu corpo no velório para ser sepultado na manhã seguinte. Lá pelas tantas, eis que o rapaz, então com nove anos, aparece em casa, para o espanto geral da população da cidade. Jacomim faleceu somente aos 52 anos, na periferia de São Paulo.


Julinho:
Homem que aos domingos vinha da zona rural, onde morava, para a cidade. Sempre muito sujo e maltrapilho, saboreando restos de frutas que recolhia das latas de lixo à porta das quitandas, acabou seus dias no Asilo de Velhos, onde evitava o banho e a cadeira de barbeiro. Taragim: Tipo popular que vagava pelas ruas da cidade, o mulato João Taragim introduziu no linguajar comum de Salto uma expressão para cumprimentar as pessoas: o famoso “Ó”, que acabou virando mania dos saltenses. Trabalhou numa granja, mas não conseguia dominar o vício da bebida e, aos domingos, geralmente amarrava bebedeiras, as quais, às vezes, duravam dias a fio. Perambulava pela cidade, inofensivo, cantarolando uns versos que ficaram no folclore geral: “Taragim comeu formiga... Taragim não come mais”. Faleceu no Abrigo de Velhos. Chicão: Chamava-se Francisco de Paula. Naqueles esfrangalhados chinelos de sola de corda, com o seu inseparável cesto de amendoins carregados por braços magros, ele encarnava um tipo engraçado por excelência. Infalível às portas dos cinemas desde os tempos do Cine Pavilhão, do Verdi, do Rio Branco e do São Bento, estava sempre apregoando o conhecido estribilho: “Torradinho... amendoim...”. João Perna-de-pau: Sujeito que puxava a perna direita que tinha sido amputada e fora substituída por um grotesco aparelho ortopédico de madeira. Fazia carretos com sua carrocinha de mão, produto de uma subscrição popular. Morreu afogado no rio Jundiaí. Xuxo: Era um homem manco de nascença, que arrastava suas pernas atrofiadas e estava sempre implicando com a turma de moleques que o enxovalhava. Saladino: Era um sujeito alto, de andar compassado e olhos esgueirados. Passava temporadas em Salto, mas na realidade era de Itu. Era o terror da criançada da época. Sempre cumprimentando todo mundo, andava pelos lados da Estação, sorrindo, na sua quase demência. Gostava muito de falar sobre batalhas da Guerra do Paraguai.


Zabé:
Tipo que mal conseguia articular algumas poucas palavras. Causava espanto nas pessoas da cidade quando se punha a dançar e cantar. Sempre com sua trouxa de roupas ao lado e sua inseparável marmita, vestia várias peças de roupa ao mesmo tempo: calças, camisas, blusas, meias e paletós. Dizem que teria freqüentado o Primeiro Grupo Escolar de Salto nos primeiros dias de sua instalação. Andava pelas ruas a cantarolar sempre o mesmo refrão: “Terezinha!... de Jesus!... abre a porta!... e acende a luz!” - e deliciava-se de tanto rir, vendo a garotada a sua volta a fazer roda e bater palmas para ele. Maria da Pinga: Era uma senhora que vagava pela cidade, sem destino, sempre acompanhada de um cachorro. Levava sempre uma garrafa com pinga debaixo da axila ou dentro do bolso do casaco e, pela mão, puxava uma cordinha com uma lata velha ou uma caixa de fósforos amarrada na ponta. Ao ser avistada pelos freqüentadores dos bares da cidade, ouvia sempre a pergunta: “E aí, Maria, vai uma pinga?”


Guerino Rato Branco:
Sujeito magro e muito vermelho que imitava a fala cantada dos paulistanos dos anos 30. Ao caminhar pela cidade, indagava sempre a quem passava: “Paga uma pinga aí?” Faleceu em frente à porta de um bar localizado na Vila Nova. Bastião Raposa: Era um negro de cabelo oxigenado, sobrinho da cozinheira de uma pensão da Rua Rui Barbosa. Bastião participou da Revolução de 1932 e vivia a contar suas proezas nos campos de treinamento e de batalha. Ferrinho: Rapaz que andava pela cidade sempre de calças arregaçadas, resmungando. Em dias de chuva, gostava de pisotear as poças d'água que corriam nas sarjetas, esbravejando. Era freqüentador assíduo do Parque Infantil, aonde ia todo dia para brincar e tomar a merenda oferecida lá. Negra Ada: Era uma negra velha que não fazia mal a ninguém. Costumava invadir o quintal das casas para apanhar frutas meio apodrecidas que caiam das árvores, das quais se alimentava.


Zé Pé-no-chão:
Fazendo jus à sua alcunha, constava que Zé nunca tinha conseguido calçar sapatos. Trabalhava como pintor de painéis que eram distribuídos pelas esquinas da cidade, divulgando os filmes da semana. Esmerava-se, sobretudo, em copiar a grafia dos nomes corretos dos artistas estrangeiros, gabando-se de tal habilidade. Maminho: Rapaz excepcional que morava com os pais no casarão que existia na esquina das ruas 9 de Julho e Rui Barbosa. Era baixo, gordo, atarracado, calvo e ficava na janela do casarão, vendo o movimento da rua. Por vezes, tomado de certa irritação, cuspia ou jogava objetos nas pessoas que passavam pela calçada. Minhocão: Seu nome verdadeiro é Lázaro Imperatto. Morador de Salto há muito tempo, é vendedor de algodão-doce e tem hoje por volta de 75 anos. Figura folclórica da cidade, Minhocão anda pelas ruas equilibrando a sua vara de algodão doce, com a qual executa diversos tipos de malabarismo para alegrar as crianças e fregueses, hoje com menos habilidade, por conta da idade avançada. Afirma de que foi o inventor do famoso sorvetão de Itu. Chegou a participar do Programa do Chacrinha, na rede Globo.


Ainda podemos citar outros tipos populares que já passaram pela cidade, como o negro Durico, que se dizia grande filósofo; Roquinho, filho de Chicão, que o sucedeu na profissão, nos trajes, no físico, mas não apregoava a sua mercadoria e ficava horas em frente aos estabelecimentos comerciais com sua cesta de amendoins, sem dizer uma única palavra; Glorinha, senhora mulata, sempre muito suja e com os cabelos desgrenhados, que pedia de casa em casa e não dizia coisa-com-coisa; Zé da Catarina, que andava pela cidade a cantar; Benedito Come-fogo, um ituano pardo que era pintor de paredes e um dia, embriagado, chegou a dormir encostado a uma porta que tinha acabado de pintar e acabou ficando preso a ela. Temos, hoje, o Zé do Algodão Doce, que milita no mesmo ofício de Minhocão, com o diferencial de “promover eventos” e ter alguns CDs de música gravados em sua própria homenagem, os quais são por ele vendidos a cinco reais pelas ruas centrais de Salto.

23.10.09

Maestro Gaó

Odmar do Amaral Gurgel, conhecido artisticamente como Maestro Gaó, foi regente, pianista, radialista e compositor musical durante mais de sete décadas. Saltense nascido em 12 de fevereiro de 1909, era filho de Joanna e Acylino do Amaral Gurgel, ambos professores e músicos em Salto. Tendo no lar as influências primordiais, já aos cinco anos Gaó estava alfabetizado e começava a estudar música. Era aluno do 1º Grupo Escolar de Salto, do qual seu pai chegou a ser diretor. Aos onze anos, o futuro maestro renomado já participava de uma orquestra de salão, da qual se tornou o regente com apenas 11 anos. À noite, em Salto, o trabalho do jovem Gaó era ir ao Cine Pavilhão para selecionar as músicas da orquestra, da qual seu pai era clarinetista, adaptando-as às diversas cenas dos filmes mudos daqueles tempos. Certa vez, o jornal carioca Correio da Manhã, em texto de Carlos Lacerda, publicou sobre Gaó, após uma brilhante apresentação sua: “A Sinfonia do Brasil, que procura exprimir na variedade dos motivos, a grandeza do Brasil através da arte, encontrou o seu animador. Por pitoresca coincidência nesse espetáculo de exaltação ao esforço e valor do povo brasileiro, o criador de beleza foi um rapaz de Salto do Itú [sic], que aprendeu piano em casa com seus pais, professores públicos, e constitui uma lição de valor e de esforço próprios, lição aos músicos e a toda gente.”


Família do Maestro Gaó. São os pais: Acylino e Joanna. Os filhos (da esquerda para a direita): Ayr, Grafir, Oisb, Walkyr e Odmar (Gaó), c.1920.

Em 1920 Gaó compôs sua primeira música, uma mazurca, e a batizou "Primeira inspiração". As seguintes foram "O cantor sincero" e "Myosotis", oferecida à sua mãe. Buscando desenvolver seu talento, foi para São Paulo, tendo como primeiro professor o pianista Samuel Arcanjo dos Santos, responsável por sua preparação para o ingresso no Conservatório Dramático e Musical de São Paulo. Nesses cinco primeiros anos na capital, residiu numa pensão – onde conheceu sua futura esposa, que era filha do proprietário – e foi empregado de uma loja de música, a Casa Di Franco. No citado conservatório teve como professores Mário Andrade, Carlos Paglucci e Savino de Beneditis. Enquanto estudava, Gaó sobrevivia toando na Jazz Band Manon e na Casa Di Franco, o que lhe propiciou o contato com renomados músicos da época, tais como Tupinambá, Eduardo Santo e Ernesto Nazareth. Assim, diplomou-se concertista em 1927.

Até 1924 assinou suas músicas com suas iniciais: O.A.G., mas aconselhado por um amigo, nessa data, inverteu-as, passando a se chamar artisticamente Gaó. Nessa mesma década atuou na rádio Educadora Paulista - pouco tempo depois rebatizada como rádio Gazeta - onde dirigiu um quarteto de cordas. Atuou também na rádio Cruzeiro do Sul. Por essa época, tornou-se exclusivo da gravadora de discos Colúmbia, da qual chegou a ser diretor, contexto no qual surgiu seu primeiro quarteto de jazz. Como solista da Orquesta Colbaz, por ele criada, obteve destaque com as músicas "Branca", "Tico-tico no fubá" (ambas composições de Zequinha de Abreu) e com os discos "Gaó, seu piano e sua orquestra", "Gaó bem brasileiro" e "Gaó viaja pelo mundo". Teve participações na sonorização de filmes, especialmente na Atlântida. Dirigiu as rádios Cruzeiro do Sul e Cosmo e criou programas de sucesso, como "Hora da saudade" e "Hora dos calouros". Compôs logotons para programas famosos à época. Já no final da década de 1930 Gaó era figura de relevo no cenário artístico paulistano.


Gaó ao piano, na rádio Cruzeiro do Sul, década de 1930.

Sua ida para o Rio de Janeiro, para trabalhar nas rádios Ipanema e Mauá, foi seguida de um curto período em solo argentino, na rádio Belgrano, com posterior retorno ao Rio, quanto a rádio Nacional o contratou. Ainda na então capital federal, Gaó trabalhou no Cassino da Urca, tendo participado de festas de figuras eminentes do cenário nacional. Esteve também à frente da Orquestra Sinfônica do Teatro Municipal de São Paulo, por curto período, e na direção da rádio Globo carioca. Em 1945 Gaó foi para os Estados Unidos, lá permanecendo por duas décadas, sendo tratado por “embaixador do samba”. Apresentou-se algumas vezes, inclusive, ao lado de Carmem Miranda. Por esses anos, ainda mantinha contato com seus conterrâneos saltenses. Suas cartas eram muitas vezes publicadas nos jornais locais. De volta ao Brasil, radicou-se em Mogi das Cruzes, onde faleceria em setembro de 1992. Muito bem acolhido nessa cidade, a escritora mogiana Botyra Camorim escreveu uma biografia sobre Gaó, intitulada Sonata em quadro movimentos. Gaó também publicou um livro, Teoria moderna de música, ao completar o jubileu de ouro de sua carreira. A última homenagem a ele prestada ainda em vida, em Salto, deu-se em dezembro de 1988, quando da inauguração de um auditório levando seu nome, anexo ao Conservatório Municipal. Nesse espaço, Gaó se apresentou pela última vez na terra natal, em 1991, no evento que foi chamado de “Noite da gratidão”.

Nota: As músicas de cada um dos personagens da Turma da Mônica, criados por Maurício de Sousa, são composições do Maestro Gaó. Você pode ouvi-las no site: http://www.monica.com.br/musicas/midi/welcome.htm

Dados artísticos de Gaó no Dicionário Cravo Albin da Música Popular Brasileira: Iniciou a carreira radiofônica em 1926, quando ingressou na Rádio Educadora Paulista. Em 1930, formou e passou a dirigir a orquestra Colbaz que gravou uma série de discos na Columbia incluindo os primeiros registros dos choros "Os pintinhos no terreiro"e "Tico-tico no fubá", e da valsa "Branca", de Zequinha de Abreu. Em 1931, contratado pela gravadora Columbia, registrou como pianista as canções "Jaci", "Saudades", e "Ilusão que se vai", as três de Jaime Redondo, e o fox-trot "Nola", de Felix Arndt. No mesmo ano, seus choros "Arreliento" e "Suspirando" foram gravados na Columbia pela Orquestra Colbaz sob sua direção. Ainda em 1931, gravou ao piano pela Columbia os fox-trot "My syncopated girl", de sua autoria, e "All of a twist", de Billy Mayerl, e os choros "Quando o banjo toca" e "Teimoso", de sua autoria. Entre 1932 e 1936, atuou nas Rádios Cruzeiro do Sul e Cosmos, em São Paulo, veio depois para o Rio de Janeiro e atuou nas Rádios Nacional e Ipanema. Ainda em 1932, teve a marcha "Marcha Caloric" gravada pela Orquestra Caloric na Columbia. Em 1934, sua valsa "Você é minha felicidade" foi gravada pela Orquestra de Salão Columbia, e o fox-trot "Silhueta" foi registrado pelo instrumentista Jonas ao saxofone. Em 1935, criou uma orquestra de dança com a qual gravou na Columbia os fox-trot "Há cha cha", de Werner e Hahn, e "June in january", de Robin e Rainger. No mesmo ano, gravou ao piano a "Rapsódia mal começada" partes I e II com arranjos seus sobre temas de Schubert. Em 1937, gravou ao piano com Ernesto Trepeccioni ao violino a toada "Araponga" e a lenda brasileira "Aparição de iara", ambas de Marcelo Tupinambá. Nesse ano, formou a Gaó, sua nova orquestra e coro com a qual acompanhou a gravação das marchas "Gauchinha" e "Já tirei o meu chapéu", ambas de Lamartine Babo, a primeira nas vozes de Lamartine Babo e Sílvio Alcântara, e a segunda nas vozes de Lamartine Babo e Silvino Neto. Nesse ano, acompanhou mais algumas gravações na Columbia: Cândido Botelho na canção "Eu amo todas as mulheres", de Robert Stoll e Cândido Botelho, e na rumba "Marinella", de Roger, Scotto e Cândido Botelho, Lais Marival no maracatu "Meu ganzá" e no samba-canção "Saudades do morro", ambas de H. Celso e A. Santos, e Raul Torres, no samba-canção "Mentira", de Fernando Lobo e Capiba, e no frevo-canção "Mauricéia", de Marambá e Aníbal Portela. Em 1938, acompanhou com sua orquestra o cantor Jorge Fernandes na gravação da canção "Adeus da Bahia", de Nelson Vaz, do motivo popular "Meu limão, meu limoeiro", com arranjos seus, no samba "Caboclo feliz", de sua autoria e Luiz Peixoto, na canção "Moreninha", de Georgina de Melo, no maracatu "Senzala", de Durval Borges e José Carlos Burle, e na "Ladainha", de Cassiano Ricardo e Armando Fernandes, e a cantora Silvinha Melo nos fox "Soldadinho de chumbo", de Marcelo Tupinambá e Galda de Paiva, e "Quando cantas "to you", de Joubert de Carvalho. Em 1939, gravou ao piano com o grupo Gaó e Seu Ritmo as marchas "Pirulito", de João de Barro e Alberto Ribeiro, "Joujoux e balangandans", de Lamartine Babo, e "Eu não te dou a chupeta", de Silvino Neto e Plínio Bretas, todas em ritmo de fox, e o fox-trot "Canaries serenade", de Billy Mayerl. No começo da década de 1940, passou a trabalhar. na gravadora Odeon. Antes porém, ainda dirigindo a orquestra Columbia acompanhou Zilá Fonseca na gravação das marchas "A charanga do Oskar", de Aloísio Silva Araújo, Francisco Malfitano e Geraldo Mendonça, "Sonho de uma noite de verão", de Aloísio Silva Araújo e Francisco Malfitano, "Pulga maldita", de motivos populares com arranjos de Francisco Malfitano, e "Pigmaleão", de Frazão e Francisco Malfitano. Em 1944, acompanhou com sua orquestra na Odeon o Trio de Ouro na gravação da fantasia "O fantasma dos povos", de Herivelto Martins e Aldo Cabral, em duas partes, e a cantora Odete Amaral no samba "Casa sem número", de Laurindo de Almeida e Dias da Cruz, e no choro "Mais devagar coração", de Gastão Viana e Mário Rossi. Nessea época, dirigiu a orquestra do Cassino da Urca. Em 1945, acompanhou com sua orquestra do Cassino da Urca o cantor Léo Albano na gravação da valsa "Ao cair de uma estrela" e no samba "Cabrochinha", ambas de Laurindo de Almeida e Edgard de Almeida, e a cantora Heleninha Costa no choro "Amor", de Laurindo de Almeida e Valdemar de Abreu, e no samba "Você é tudo que eu sonhei", de Laurindo de Almeida e Del Loro, dessa vez com seu sexteto, gravações efetuadas na Continental. Nesse ano, viajou para os Estados Unidos onde permaneceu por seis anos. Em 1946, voltou por breve tempo e acompanhou com sua orquestra de concertos na Victor o cantor Gilberto Milfont na gravação das canções "Geremoabo" e "Maringá", de Joubert de Carvalho. Na década de 1950 foi contratado pelas Organizações Victor Costa atuando com sucesso na Rádio Record. Em 1954, atuou no programa "Quando os maestros se encontram" da Rádio Nacional do Rio de Janeiro. Nesse ano, acompanhou com sua orquestra na Odeon a cantora Norma Ardanuy na gravação do samba "São Paulo de Anchieta", de Vanda Ardanuy, e na toada "Rabicho", de Marcelo Tupinambá, e a cantora Hebe Camargo na gravação dos sambas "Vou pra Paris", de Antônio Maria e Fernando Lobo, e "Aconteceu em São Paulo", de Antônio Maria, no fado "Tudo isso é fado", de Fernando Carvalho e Aníbal Nazareth, e no bailarico "Festa portuguesa", de Antonio Rago e Mário Vieira. Em 1955, acompanhou noovamente a cantora Hebe Camargo com sua orquestra na gravação do fox "Johnny Guitar", de Victor Young em versão de Júlio Nagib, e na canção "O que eu queria dizer ao teu ouvido", de Hekel Tavares e Mendonça Junior. Em 1960, gravou com sua orquestra pela Odeon o LP "Gaó viaja pelo mundo" numa viagem através de composições de várias partes do mundo no qual foram interpretadas as músicas "Brasileirinho", de Waldir Azevedo, "Asunción", de F. Riera, "Mi Buenos Aires querido", de Carlos Gardel e Alfredo Le Pera, "Jamaican rumba", de A. Benjamin, "Port-au-prince", de B. Wayne, "Havana special", de O'Farril, "Malagueña", de Ernesto Lecuona, "Coimbra", de Raul Ferrão e José Galhardo, "Sous le ciel de Paris", de H. Giraud, "Arrivederci Roma", de R. Rascel, Garinel e Giovanini, "Wien du stalt meiner traeume", de R. Sieozynski, e "Manhattan", de Rodgers e Hart. Gravou em 1964, pela Odeon, o LP "Gaó, seu piano e orquestra" no qual interpretou músicas de sua autoria como "Diamante azul", "Mimoso", e "Minha garota sincopada", além de clássicos da música popular brasileira como "Odeon", de Ernesto Nazareth, e "Samba em prelúdio", de Baden Powell e Vinicius de Moraes. Dois anos depois, lançou pela London/Odeon o LP "The melodic sound of Gaó's piano and The Ipanema strings" interpretando onze clássicos da música popular brasileria: "Murmurando", de Mário Rossi e Fon-Fon, "Curare", de Bororó, "Apanhei-te cavaquinho", de Ernesto Nazareth, "Flor de abacate", de Alvaro Sandin, "Naquele tempo", de Pixinguinha e Benedito Lacerda, "Da cor do pecado", de Bororó, "Ai yoyo (Linda flor)", de Henrique Vogeler e Luiz Peixoto, "Saudade", de Lauro Miranda, "André de sapato novo", de André Victor Correia, "Carinhoso", de Pixinguinha e João de Barro, e "Tenebroso", de Ernesto Nazareth, além do choro "Cabeludo", de sua autoria. Em 1967, gravou doze valsas brasileiras clássicas também pela London/Odeon no LP "Valsas brasileiras" no qual interpretou "Expansiva" e "Coração que sente", de Ernesto Nazareth, "Última inspiração", de Peterpan, "Aurora", de Zequinha de Abreu e Salvador J. de Morais, "Saudade de Iguape", de João Batista do Nascimento, "Só pelo amor vale a vida", de Zequinha de Abreu, "Saudades de Ouro Preto", de Antenógenes Silva, "Velho realejo", de Custódio Mesquita e Sady Cabral, "Boa noite amor", de José Maria de Abreu e Francisco Matoso, "Clube XV", de Oscar A. Ferreira, "Longe dos olhos", de Zequinha de Abreu e Salvador J. de Morais, e "Mimi", de Uriel Lourival. Em 1969, gravou o LP "Bem brasileiro" no qual interpretou de sua autoria as músicas "Paquerando" e "Mini-saia", e os clássicos "Brasileirinho", de Waldir Azevedo, "Garoto" e " Zênite", de Ernesto Nazareth, "Tico-tico no fubá", de Zequinha de Abreu, "Atraente", de Chiquinha Gonzaga, "Choro Nº 1", de Villa-Lobos, "No rancho fundo", de Ary Barroso e Lamartine Babo, "Um baile em Catumbi", de Eduardo Souto, e "Chuá chuá", de Pedro de Sá Pereira e Ari Pavão. Nesse ano, sua composição "Paisagem tropical" foi gravada por Osni Silva no LP "Mais uma noite".


Discografia de Gaó:

Jaci/Saudades/Ilusão que se vai/Nola
(1931) Columbia 78

My syncopated girl/All of a twist
(1931) Columbia 78

Quando o banjo toca/Teimoso
(1931) Columbia 78

Há cha cha/June in january
(1935) Columbia 78

Rapsódia mal começada (I)/Rapsódia mal começada (II)
(1935) Columbia 78

Pirulito/Canaries serenade
(1939) Columbia 78

Joujoux e balangandnas/Eu não te dou a chupeta
(1939) Columbia 78

Gaó viaja pelo mundo
(1960) Odeon LP

Gaó, seu piano e orquestra
(1964) Odeon LP

The melodic sound of Gaó's piano and The Ipanema strings
(1966) London/Odeon LP

Valsas brasileiras
(1967) London/Odeon LP

Bem brasileiro
(1969) London/Odeon LP